Alterações do desenvolvimento relacionadas a prematuridade: Linguagem

É relativamente comum percebermos atraso de linguagem, na população de crianças com nascimento pré termo. De forma geral o “catch up” de desenvolvimento (podero-estatural , motor e cognitivo) que esperamos que ocorra dentro dos 2 primeiros anos, nem sempre é alcançado na utilização de linguagem principalmente verbal. 

Por que isso ocorre?

O sistema auditivo fetal é desenvolvido  entre a 23ª-25ª semana de gestação, sendo obtida resposta por parte do feto a estímulos sonoros entre a 26ª-30ª semana.

As frequências sonoras serão percebidas no ouvido interno através de uma estrutura chamada cóclea, e o ambiente intra-uterino favorece seu desenvolvimento correto por aumentar a percepção de ruídos de pequena amplitude – internos  batimento cardíaco, digestivo, …) e servir como barreira aos de maior amplitude – externos (voz da mãe, musicas, buzinas) .

A interação da criança com o meio ambiente faz se por meio da produção e percepção de sons, ações e comportamentos. A linguagem é um dos principais responsáveis pela mediação dessa relação, e é dividida em pré-lingual ( até os 12 meses) e lingual.

Na fase pre lingual, o desenvolvimento da linguagem receptiva é extremamente importante, o bebe entenderá como a mãe se expressa e como deverá responder. Os primeiros marcos de linguagem como contato visual, sorrir, compartilhar atenção, emitir sons , vocalizar, são de extrema importância para mediação dessa relação.

Em bebés pré-termo com necessidade de internação em uti, nem sempre a presença dos pais em tempo integral é possível, e disfunções na comunicação social inicial, associado a longos períodos de separação podem ter impactos negativos na compreensão e elaboração da linguagem 

Além de privados dos sons maternos, a exposição a sons de alta amplitude dentro da uti como de eletrônicos e máquinas, assim como ausência completa de sons dentro da incubadora também terá relação negativa com o desenvolvimento da linguagem.

Outro fator importante seria a qualidade do relacionamento da criança com cuidador. Muitas mães expostas ao stress psicológico da uti, podem desenvolver transtornos depressivos ou ansiosos, relacionados ao prejuízo na interação com seu bebe. 

Estudos comparam a linguagem entre bebes a termo e pre termo, encontrando cerca de 3-4 meses de atrasos entre a evolução de ambos os grupos.

Na fase lingual, a linguagem expressiva ganha destaque, e a criança utiliza melhor a fala. Foram encontradas dificuldades gramaticais e de vocabulário nos primeiros anos dos prematuros persistindo até a idade escolar com prejuízo no reconhecimento e elaboração de fonemas.

Foi encontrada uma correlação linear entre a idade gestacional ao nascimento e atraso na linguagem, quanto menor a idade gestacional menor quantidade e qualidade de palavras usadas. Essa correlação pode ser explicada também pelo déficit de atenção, concentração e memoria encontrados comumente nesse grupo de pacientes.

Ver, sentir e principalmente ouvir a voz materna cantando e conversando , melhora não só o prognóstico futuro , como níveis de saturação de oxigênio, batimentos cardíacos e respiração durante a internação.

Favorecer esse encontro de maneira mais precoce possível também favorece o vinculo mae/ família-bebe, reduzindo o stress materno, a longo prazo apresenta correlação com melhora do desenvolvimento  psicológico , de comportamento e também neurológico da criança

Partilha este artigo:

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.