A História do Bernardo e do Vicente

Gémeos prematuros!!! E agora?

Todas as histórias de nascimentos de bebés têm em comum: o conhecimento, a gravidez, o nascimento, o internamento, a alta hospitalar e o resto da vida.

A nossa, como é óbvio, não foi excepção, não sendo novidade para nós por já termos 3 filhos.

– O conhecimento:

Como na maioria dos casos, após as suspeitas da mulher do costume, após o teste  – positivo – comprado na farmácia, lá fomos ao médico do costume – sim, o homem também vai ao obstetra, nem que seja como acompanhante da mulher!

Colocadas e respondidas as perguntas da praxe, segue-se a derradeira confirmação com a realização da ecografia. Um momento sempre envolvido em algum nervosismo, expectativa e, no nosso caso, muito receio, pois a última, feita um ano antes, tinha transmitido uma má notícia. Portanto, as expectativas eram, não diremos baixas, mas realistas, onde qualquer hipóteses tinham sido equacionadas. Todas não! A possibilidade de serem gémeos, tirando uma breve abordagem a essa possibilidade feita pelo pai em tom de brincadeira uma semana antes, nunca tinha sido equacionada.

Ecografia perfeitamente normal, onde o “nosso” médico, o Dr. Carlos Santos Silva, nos apresenta o que julgávamos ser “o” feto, com as suas explicações normais, sendo aquela que mais nos marca a do bater do coração, pois é esta que, para nós pais, faz prova da existência de vida. Mais adiante, após mais umas incursões exploratórias pela barriga da mãe, ouvimos o médico, no seu tom brincalhão que tanto o caracteriza, dizer: “ mas eu não bebi nada hoje!” De imediato, pergunta ao pai: “Luís, bebeste alguma coisa hoje?”, tendo este respondido que não, embora não percebendo absolutamente nada do que se estava a passar, passando a ficar mais alerta a qualquer movimento da mão do médico que tinha o aparelho e o monitor.

Mãe e pai trocaram olhares de pânico e expectativa, pois aquela afirmação, seguida daquela questão teriam, com toda a certeza, um qualquer desenvolvimento e uma razão de ser.

“Vocês só me surpreendem”, disse o médico, causando um maior sentimento de pânico entre nós, partilhado apenas pela nossa troca de olhares. “Temos aqui gémeos!!”

“O quê”? Perguntámos nós. “Tem a certeza?! Não brinque com coisas sérias!”

Sem dar tempo para sequer interiorizarmos a notícia acabada de receber, e após uma melhor análise médica dos dois fetos, da placenta, etc., mudando o seu tom de voz para modo sério, o médico disse para nós sentarmos e falar sobre a gravidez.

Logo pelo tom, como dissemos, sério, vimos que esta gravidez seria completamente diferente das três anteriores, e acertámos!

Tratava-se de uma gravidez de gémeos monozigóticos, ou seja, gémeos verdadeiros, e Monocoriónicos, Biamnióticos (uma placenta e dois sacos aminioticos). Apesar de nos ter dito que a taxa de sucesso seria de 80%, como já seria de esperar, ficámos inicialmente agarrados aos 20% de insucesso.

Saímos do consultório em silêncio, falando apenas com o olhar e totalmente em pânico. Os riscos eram muitos. Os malditos 20% não saiam da cabeça, acompanhados das palavras “gravidez de risco!”. No nosso caso, passaríamos de três para cinco filhos. Dois ao mesmo tempo! E até lá? O que se iria passar?! E lá vinham outra vez os terríveis 20% e a “gravidez de risco!”

Foram certamente duas horas de ensurdecedor silêncio, em que as nossas cabeças processavam tanta informação ao mesmo tempo que a capacidade de falar ficou bloqueada.

– A gravidez 

Os meses seguintes foram de deslocações quinzenais ou mesmo semanais – chegando a ir duas vezes na mesma semana – para Maternidade Alfredo da Costa (MAC), ora para consultas, ora para exames, nomeadamente ecografias, sendo estas as que causavam maior nervosismo até se ver que estava tudo bem. A par destas consultas, havia a toma diária de uma injecção na barriga da mãe ministrada pelo pai.

Apesar de ser um acto doloroso para a mãe, era também um momento em que o pai podia intervir directamente no crescimento dos fetos, pois essa injeção de (…) servia para aumentar o fluxo sanguíneo entre a mãe e os bebés, de forma a alimentá-los mais, de forma a ajudar e acelerar no seu crescimento. Aqui o pai deixava de ser um mero espectador, passando a ter um papel activo, mesmo que fosse no simples acto de dar uma injeção.

– O nascimento 

Às 29 semanas de gestação, sem que nada fizesse esperar, depois de dois dias cansativos para a mãe, esta sentiu que algo não estava bem, e, já de madrugada, seguimos para o Hospital de Cascais, onde, após entrada imediata, se confirmou a existência de contrações.

Lá dentro, foi assistida, e muito bem, na tentativa de controlar as contrações e evitar o parto.

Cá fora, o pai! Nestas alturas, a mente do pai está a “mil à hora” mas sem sair uma ideia de jeito. A preocupação é muita, só reduzida pelas informações dadas pela mãe por mensagem. Agora, pois, antigamente, nem isso. Era a ignorância total até aparecer alguma alma carinhosa com informações mais valiosas que ouro.

Em todos os meus filhos, para tentar manter a calma, cantarolei a música do meu amigo Fernando Tordo, “Balada para os nossos filhos”: “Um filho é como um ramo despontado

Do tronco já maduro que sou eu

Um filho é como um pássaro deitado

No ninho da mulher que me escolheu

Um filho é ver-se um homem prolongado

No mundo da verdade em que nasceu

Um filho é ver-se um homem atirado

Das raízes da terra para o céu.” (…).

Um traulitar interrompido pela chegada de mais um pai com ar pálido e desesperado como nós, a quem, momentos depois, lhe é entregue um saco de plástico com os pertences da mulher/namorada, o que faz aumentar ainda mais o ar de “carneirinho mal morto”. Assim, podemos ver a cara que fizemos momentos antes. Trocamos um olhar de solidariedade com o “colega sofredor de espera e cada um retoma os seus confusos pensamentos.

Exactamente dezasseis minutos depois de receber uma mensagem da mãe a dizer que as contrações estavam a diminuir, o pai recebe outra mensagem a dizer “sobe, vão nascer”!

Depois de uma quase total quebra de forças devido ao choque, lá vai o pai a correr, tendo-lhe sido dada a oportunidade de se despedir da mãe. 

O aparato era assustador, aumentado ainda mais com a pressa das auxiliares e das enfermeiras em levar a mãe de maca para a sala de partos, dando apenas tempo para um pequeno e rápido beijo e umas palavras de conforto. 

O pânico instala-se na minha mente, só me recordando de ter questionado o tempo todo: “E agora…e agora?”

Em simultâneo, também me penitenciava por ter dado a ideia de termos a um festival aéreo no Museu do Ar de Sintra, onde a Teresa esteve em pé algum tempo, de baixo de um Sol bastante quente para a época.

Sabia que estava a entrar num mundo totalmente desconhecido, o mundo da prematuridade.

Um mundo que só conhecia de algumas reportagens na televisão, de algumas leituras espaçadas e de pequenos relatos de outras pessoas – agora percebo que um pai/mãe de prematuros não se alargue na conversa com quem não viveu esta realidade, pois é de difícil compreensão, havendo muitas ideias pré- concebidas totalmente erradas. Sobre isso já lá iremos.

Algum tempo depois, que não consigo ainda hoje precisar, pois pareceram-me horas, chegou uma enfermeira a dar a notícia do nascimento dos gémeos, limitando-se apenas a transmitir que eles e a mãe estavam bem e que a poderia ir ver no recobro.

Assim, no dia 20 de Maio de 2018, nasciam, de 29 semanas, o Bernardo e o Vicente.

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Depois de uma atribulada gravidez de risco, com idas quinzenais e, depois, semanais à MAC e de injecções diárias de (…) dadas por mim na barriga da mãe, para aumentar o fluxo sanguíneo e, assim, alimentar mais os gémeos (foi a sua sorte), e de um parto à pressa, chegava a altura de entrar pela primeira vez numa Unidade de Neonatologia para conhecer e estar com os nossos filhos.

Estando a mãe ainda internada, a caminhada pelos corredores do hospital foi feita com esta em cadeira de rodas e acompanhados de uma simpática auxiliar que, como forma de nos preparar e descontrair, nos ia fazendo um relato do aparato que iríamos encontrar.

Depois de alguns minutos e uns quantos corredores depois – que pareceram horas e kms de uma infindável autoestrada – chegámos à porta da Neo. O nervosismo e a ansiedade aumentavam a cada segundo de espera pela sua abertura. O receio pelo desconhecido era muito, sendo ainda maior o receio de como iríamos encontrar os nossos meninos, que ainda só conhecíamos das ecografias.

Finalmente a porta abre-se e entrámos naquele novo Mundo. Indicados por uma enfermeira a localização de cada um dos gémeos – um em cada ponta da unidade, pois eram as únicas vagas -, entregaram-nós a difícil escolha de qual primeiro visitar. Optámos por escolher pelo Bernardo, pois era o “gémeo n. 1”.

Mais uns metros nos separavam do Bernardo. Ao mesmo tempo que íamos na direcção da sua unidade, ouvíamos todos aqueles sons que quem esteve numa Neo conhece e sabe do que falo. 

Tenho a ideia que, a partir do momento em que indicaram a unidade do nosso filho, a minha visão periférica deixou de existir, tendo-me focado apenas na sua direcção. Naquele momentos, o coração começou a bater ainda mais e o nervosismo aumentou. 

Lembro-de caminhar e pensar que teria de ser forte porque tinha que também apoiar a minha mulher.

Entramos na unidade, que estava a meia luz e que, ao centro tinha uma incubadora parcialmente tapada com o que parecia um cobertor feito à medida. Atrás desta, uma série de aparelhos, que só tínhamos visto em filmes, e um monitor.

Sem destapar, olhamos para o interior e, pela primeira vez vimos um pequeno ser, de pele quase transparente, com um pequeno barrete enfiado na cabeça, uma máscara que lhe tapava a cara quase toda e muitos fios.

Nesta altura a emoção apoderou-se de nós. Dei a mão à minha mulher com o intuito de a reconfortar e lhe dar força. No entanto, quem o fez foi ela a mim.

Acusando a pressão e a emoção, não resistir e o choro apareceu como um incontornável golpe vindo do interior. Apesar de o ter tentado agarrar, pois, para todos os efeitos, a missão de tranquilizar era minha, ele saiu.

São indescritíveis os sentimentos que se apoderam de nós. Por um lado, estamos felizes com o nascimento de um filho – neste caso, dois -, mas por outro, a consciência que nos espera uma luta diária e que não sabemos como terminará. 

Nesse instante, senti a presença de alguém à porta que, respeitando o nosso momento que deveria ser apenas dos dois, esperava pacientemente pelo seu fim. Era uma simpática enfermeira.

De forma suave, delicada mas com um tom firme, pôs-nos ao corrente do que se estava a passar, avisando-nos que devíamos estar preparados para alguns avanços e recuos por vezes, com a diferença de horas ou minutos.

Nessa altura, pela primeira vez, ouvimos uma frase que iríamos ouvir por muitas mais vezes e que se tornaria, dali para a frente, o nosso lema de vida: “temos de viver um momento de cada vez.”

Numa Unidade de Neonatologia, essa é a frase mais ouvida e que mais sentido faz.

É estranho ver os nossos filhos naquele aquário e sentir que pouco ou nada podemos fazer por eles, restando-nos apenas observar outros a cuidar deles e a garantir que ficarão bem. A entrega da vida dos nossos filhos aqueles profissionais é total. Essa entrega é de tal forma que, nos primeiros dias, senti que não tinha qualquer controle sobre os gémeos. Tudo o que fazia – tocar, acariciar, destapar, pegar, mudar uma fralda, etc – era feito apenas com autorização das enfermeiras. 

Só no terceiro dia fomos autorizados a pegar nos nossos filhos e apenas por breves momentos. Foi um misto de alegria, emoção e alguma tensão, pois nunca tinha pegado num ser tão pequeno e tão frágil como aquele. O seu tamanho, da cabeça ao tronco, era do tamanho da minha mão. Uns ratinhos, como os chamávamos!

Nos primeiros dias andávamos ainda meio “anestesiados” com a emoção e a novidade, anestesia essa que teve o seu fim no dia em que um dos gémeos ficou isolado por ter apanhado uma bactéria. Foi ai que, pela primeira vez, nos apercebemos da eventual possibilidade de alguma coisa poder correr muito mal. Foi nessa altura que se fez o “clique” e encarámos a dura possibilidade de algum deles – ou ambos – poder não resistir.

Foi um choque, um atirar de água fria, uma chapada na cara para acordar! Não há forma de descrever esta sensação e o que nos passa pela cabeça, pois passa tudo e nada, ao mesmo tempo.  

Creio que foi a partir daqui que melhor entendemos o que nos queriam transmitir quando nos disseram que, na Neo, vive-se um dia de cada vez. Este foi um lema que nos ficou para a vida!

Felizmente, o Bernardo melhorou dia para dia até ficar curado.

De forma a evitar ter de contar a peripécia do nascimento prematuro dos gémeos, o seu estado e responder a uma bateria de perguntas, optámos, de uma forma muito natural, por nos afastar um pouco das pessoas. Foi o melhor que fizemos, pois, por vezes, fomos confrontados com os comentários mais imbecis, ignorantes e sem sentido que alguma vez imaginámos ser possíveis: “Estão na incubadora só para engordar.” (Talvez a mais comum); nasceram em Maio em vez de Agosto?! Que sorte, assim não tem de passar o Verão grávida”; “estão internados? Que bom, assim tem que cuide deles”.

Perante tamanha estupidez, a melhor decisão foi nos afastar um pouco da “civilização”, embora, por ser profissional liberal, tivesse que continuar a trabalhar, obrigado, inevitavelmente a contar a história do nascimento vezes sem conta. Em contrapartida, houve, de forma natural, uma aproximação a quem já tivesse passado por experiência semelhante. Com estas pessoas sentíamos que estávamos a falar “de igual para igual”!

Passados alguns dias foi-nos dada a oportunidade de “fazer canguru”, ou seja, ter o bebé no nosso peito e em contacto directo com o nosso peito. Esta é mais uma experiência inesquecível e inexplicável, não só pela proximidade que nos proporciona com o nosso filho, como também pelos efeitos que lhe provoca – os níveis de oxigénio e saturação ficam estáveis e sem grandes oscilações, mesmo sem qualquer suporte de oxigénio. 

Os restantes dias, de um total de 56, foram todos diferentes, embora fosse igual a grande ansiedade sentida enquanto se aguardava que nos fosse aberta a porta da Neo e ao percorrer os corredores até se chegar à fala com as enfermeiras responsáveis por cada um dos gémeos.

Durante esse período, qualquer pequeno passo de avanço era sentido como uma grande vitória, embora sendo sempre comemorados de forma comedida. Nunca imaginei que um grama de peso, um ml de leite a mais bebido ou até mesmo a possibilidade de vestirem a primeira roupinha – o que significava uma melhoria significativa na respiração e a ausência de necessidade de controlar os movimentos abdominais – fossem vitórias tão grandes como a sentidas aquando da escalada de uma montanha. Aliás, era assim que via aquele percurso: sinuoso, íngreme, cheio de obstáculos, com subidas e descidas mas sem nunca perdendo o foco – a esperança – na chegada ao cume.

Por outro lado, os retrocessos eram sentidos como murros no estômago e que tinham um efeito, por vezes, quase devastador. Eram chamadas para a realidade, por vezes esquecida pelas vitórias. 

No entanto, se por um lado as vitórias tinham um efeito moralizador, os retrocessos, nas situações mais graves, conseguiam, de um momento para o outro, fazer perder a esperança, mesmo que por breves momentos.

Tudo isto com outros três filhos para criar e que também necessitavam do nosso apoio, o que nem sempre foi dado da melhor forma possível, pois as forças, por vezes, faltavam.

A grande preocupação, em primeiro lugar, era não deixar transparecer as nossas preocupações e os nossos receios nos dias menos bons, tentando dar todo o apoio possível. Temos consciência que, muitas das vezes, não o conseguimos fazer e muitas vezes nos questionávamos se estaríamos a agir da melhor forma numa ou outra situação. 

Felizmente, passados os 56 dias de internamento, um dia depois do meu aniversário – o melhor presente (duplo) que alguma vez poderei receber – os gémeos tiveram alta e vieram para casa.

Os primeiros dias foram de grandes receios, pois estávamos já habituados a ter máquinas a avisar no caso de alguma cousa estar mal, além de estarmos rodeado de enfermeiras e médicos, que acudiam em segundo logo ao primeiro sinal de solução. Digamos que tivemos de fazer o “desmame” das máquinas, das enfermeiras (e do enfermeiro) e dos médicos, o que também é um processo com alguma complexidade a nível emocional, já para não falar a nível de ausência de descanso.

Texto escrito por: Luís Pires de Lima, pai do Bernardo e do Vicente.

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