A história do Dinis e da Madalena

Nascidos antes de tempo!
Fiquei grávida a primeira vez em Outubro de 2011. Tudo corria lindamente, é menino!
Dia 14 de Fevereiro de 2012 fiquei de baixa de alto risco, andava bastante nervosa (trabalho) vim para casa e tudo estava verdadeiramente bem, sempre a fazer o meu repouso (não absoluto). Na madrugada de 21 de Março senti imensas dores durante a noite, mas diz que é normal o corpo em mudança… Fui passear o cão… e senti tonturas (não liguei muito, pois volta e meia tenho, grávida ou não), fui comprar comida para o cão… e tinha algum cansaço era um facto, e foi a senhora da loja que me deu o alerta “Está tudo bem?! tá com uma cara…” e pensei mas que raio…. liguei a minha OB que felizmente não atendeu, e pela primeira vez ligo à saúde 24, onde após perguntas… a enfermeira me diz “mãe está com contrações… vou mandar o INEM”. Não pode ser… estou de 25 semanas… (e penso ok, vou ver o rapaz na ECO)
Foi a saúde 24 que nos salvou!!!
Vou para o Hospital Beatriz Ângelo, que tinha aberto a parte de maternidade nessa semana… entre CTG, negação de enfermeiros… e eu completamente em negação, super calma e tranquila da minha vida… me dizem as médicas, “vai ficar internada mas no bloco de partos, não temos cá ninguém e assim fica pertinho de nós… ” Ok tranquilo.
Era 1h da manhã, nesse dia era uma greve geral 23 Março 2012… devo ter estado 30 minutos na cama… e grávida que é grávida, vai muito ao WC … e sangue muito sangue…. foi o caos, eu não podia estar ali, eles não tinham condições para o meu bebé… sou transferida nessa madrugada para o Hospital de Santa Maria e  lá conseguem estabilizar as hemorragias … eu desliguei do mundo e da realidade assim que fui transferida…. Achei um exagero enorme da parte deles.
Não me foi explicado os riscos que corria… (e ainda bem) cheguei a sair dos intensivos e estar num quarto. Mas dia no 27 o inferno voltou… e dia 28 de março de 2012 às 16:12 o Dinis nascia de 26s e 6dias…
Descolamento total de placenta, foi tudo tão rápido entre a hemorragia descontrolada e entrar no bloco e ser colocada a dormir, que não tive tempo para dramas… o que mais retenho desse momento, foi a loucura de todos os meios disponíveis estarem ali para mim, ver o pânico nos médicos, enfermeiros, anestesistas… Era gente a correr de todos os lados, a ir contra armários, muitas indicações entre eles… gente e gente a entrar, e o anestesista dizer ao ouvido, “…eles são mesmo assim, vai correr tudo bem… até já!”
O Dinis nasceu, foi reanimado… e colocado no ventilador…  1140gramas. Conseguiram salvar-me a mim e ao Dinis. Eu acordei, e nem o meu nome sabia, tinha um discurso altamente estranho. Mas continuava calma, o meu marido nem sabia como me explicar o que tinha acontecido, eu não estava ali… não era eu!
No dia seguinte fui ver o Dinis, e o sentimento de culpa de incompetência foi avassalador. O prognóstico não era animador, mas aprendemos que era um dia de cada vez, ou uma hora de cada vez. Ele fez uma Sepsis na primeira semana de vida, e teve de fazer encerramento de canal arterial, e passado 2 dias uma sepsis, aí achei  que morria… que não ia aguentar, a culpa era cada vez maior. 54 dias com ajuda respiratória… felizmente correu bem, e o percurso não sendo o melhor… foi positivo. Teve sempre leite materno no internamento, nunca mamou directamente, os colos eram altamente pensados e ponderados. Assistimos à partida de outros bebés, um ambiente muito complexo e pesado os cuidados intensivos.
Teve alta com 64 dias com 2010gramas.
Ficou com sequelas respiratórias, e motoras que precisou de ajuda e conseguiu reverter. Parte respiratória ficou controlada (aparentemente). Até aos 4 anos vivemos muito em hospitais, consultas, exames, terapias, muitas idas às urgências. Hoje o que se pode notar é apenas a motricidade fina, ainda não tem a força desejada, mas com o tempo vai lá. Foi difícil fazer o luto de uma gravidez interrompida, de ter tido muita coisa roubada da maternidade, de não haver explicação para o que se passou.
Aos 4 anos o Dinis pede uma mana…. impensável, não queríamos passar por isso, eu poderia não ter a mesma sorte, tanto eu como o bebé.  Fiquei com demasiada noção do que é nascer antes de tempo.
Bem mas lá fui, fazer exames e mais exames, tudo OK. Avançar… e assim foi. O acordo era que jamais pensasse em trabalhar depois das 23 semanas, mas eu andava tão bem, tão feliz, e sem medo, porque não acontece 2 vezes, a mim não caramba.
Engravido em Julho de 2016  É uma menina, que bom, elas tem mais probabilidades caso nasça prematura…  O acompanhamento foi diferente, mais exames, muito mais controlo da placenta. Tudo lindo e maravilhoso… às 16 semanas tensões lá em cima. Por volta das 20 semanas, numa eco começo a ter colo curto.Pronto… já vi este filme, sou encaminhada pela minha OB para a colega dela da MAC de alto risco. Dia 12 de Dezembro tenho a consulta e a médica observa e volta a pedir uma eco, e informa que dado o meu historial pesado, tenho de ficar internada até às 34 semanas! Consegui pedir para vir a casa arrumar as minhas coisas e encaixar a ideia melhor, já sabia ao que ia.
Foi difícil, deixar o Dinis em casa, faltava muito, ficaríamos até meio de Fevereiro. Foi um internamento difícil, cama, poucos banhos… excesso de informação e conhecimento. Comemoramos as 27 semanas, com toda a equipa, depois cada semana era uma vitória. Eu estava bem, o colo mantinha-se curto e zero contrações, portanto porreiro talvez as 32 semanas até me deixem sair… Passei o natal, os meus anos, a passagem de ano internada longe dos meus. O Dinis tinha dias que não me queria ir ver, era difícil para ele, horrível para o pai, mas foram um guerreiros.
Dia 14 de janeiro as malditas contrações aparecem inesperadamente, a coisa dá para controlar com medicação. Estava feliz… Dia 18 o Dinis traz um bolo para a mana, e eu não me sentia bem… mas deixei os 2 saírem, e assim que vou à arrastadeira (aquela amiga) sangue…. não queria acreditar… comi o bolo e pensei… é o nosso último bolo juntas.
Sou transferida para os cuidados intensivos, faço uma série de medicação, incluído neuroproteção (3 doses) estive lá quase 24h, e mandaram-me para o quarto, porque o sangue tinha reduzido, mas à noite começo com contrações… Tive uma médica da urgência, que infelizmente não sei o nome, mas que me disse as melhores palavras “mãe, não sei o que está a passar, e sendo a 2ª vez não há nada que lhe possa dizer, apenas que fez tudo o que podia nós assistimos isso a natureza é sábia” Não percebiam o que se estava a passar. Mas estaria por dias o nascimento.
Dia 20 às 10:15 com 30 semanas e 2dias e com 1635 gramas a Madalena nasceu, depois de um novo aparato, e outro descolamento total de placenta. Aí sim senti o medo, sabia o que estava a acontecer, e sabia que poderia não acordar daquela anestesia, sabia o que era uma neonatologia e todos os riscos. A Madalena nasceu com APGAR 9-9-9, fantástico!!!!
Fez também 2 sepsis, e teve imaturidade do sistema cardíaco, que nos tirou o sono.
Ter voltado à neo foi uma chapada de realidade, se achamos que nunca nos esquecemos do tamanhos dos nossos filhos, ao ver a Madalena, achei que era mais pequena que o irmão, deu muitas risadas na neo. O tratamento é diferente, a linguagem usada é diferente, parecemos colegas quase, as permissões de tratar do bebé também mudam. Levei mais tempo para poder pegar na Madalena, já tinha 7 dias. Uma menina que nasceu zangada, não queria grandes toques e reclamava muito.
Sempre teve leite meu, embora a subida tenha sido mais tardia (curioso), consegui que viesse à mama, e mamou até agora, deixou à poucas semanas. Teve uns problemas de audição e aos  2 anos, foi submetida a uma cirurgia. É uma menina com resultados cognitivos  acima da média, para a idade! Sou uma mãe que nunca viu os filhos nascer, não tem o pai no parto, não dá colo nas primeiras horas.
A Madalena veio acalmar o sentimento de culpa, pois desta vez eu estava internada à mais de 7 semanas, onde até as refeições eram feitas deitada e voltou a acontecer, tenho um problema certamente, não sabem qual.  E não posso ter mais filhos!
Como se ainda tivéssemos coragem, acima de tudo acho que até fomos abraçados pela sorte!
Tudo correu bem, graças à saúde 24, INEM equipas multidisciplinares tanto maternas como na neonatologia.
Ficamos com uma segunda família.
Testemunho dado pela mãe Carla Rita.

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